Fim da história

“It was a night of rain and blood…”, lia um corajoso estudante em um tomo que retratava uma noite muito parecida com aquela que tomava a imensidão do lado de fora de sua barraca, naquela cidadela, por onde sua caravana passava.

Era um lugar fechado, com a mata escura e morta. Assombrado por lendas e animais selvagens, que se escondiam na densa floresta, que parecia ser propriedade do próprio satã.

A tempestade alagava as ruas, formando poças e movendo a terra suja, junto com a lama, para dentro dos casebres construídos rusticamente com madeira, pedras e tijolos.

O estudante corajoso ria da história que um velho local lhe contara mais cedo, feita para amedrontar criancinhas e pessoas com a cabeça fraca. Fechou o pesado livro sobre as pernas e colocou sobre uma mesa de madeira improvisada para evitar que o material fosse deteriorado pelo chão alagado, e foi deitar-se em sua cama de palha morta.

Era tarde da noite, quando um grito ou raio lhe gelou a alma e perfurou seus ouvidos.

Fora da cabana, um grupo de pessoas ressoava um antigo cântico em latim, de forma tão arrastada que mais parecia uma lamúria. Ainda chovia, mas o destemido jovem perdera seu sono.

“O que houve?” inquiriu o destemido.

“Riste de minha história, jovem” Respondeu o velho que, mais cedo, lhe contara a história. “Vais agora rir da desgraça causada?”

Um corpo que já pertencera a uma mulher, mas agora não mais, jazia no chão lamacento e molhado. As roupas e a água estavam rubras.

Para o horror dos moradores, a cabeça havia sido arrancada ao corpo com enorme selvageria.

“Um bicho do mato deve tê-lo feito!” Respondeu o jovem, impassível. “Posso encontrá-lo. Dê-me uma arma que ainda trago a cabeça dele e da falecida mulher!”

Em instantes, deram-lhe uma arma e o jovem corajoso virou-se para a negra e morta floresta amedrontadora, com a chuva em seu encalço.

Mas antes de partir em seu intento, o velho dirigiu-lhe:

“Arrepender-te, um dia vais!”

À passos largos para não perder qualquer trilha ou pista de seu alvo, o jovem adentrava cada vez mais mata adentro.

E, enquanto caminhava com os relâmpagos regendo as batidas do seu coração, o corajoso estudante viu alguma coisa mover-se logo à frente. E um arrepio, que ele não identificou ser da chuva fria que se aplacava ou não, correu pela sua espinha e eriçou os pelo da nuca.

E a história do velho libertou-se das amarras do esquecimento e tomou a mente do estudante.

“Era na época das bruxas.” Dizia a voz do velho, em sua cabeça. “Um padre, dito pecador, foi delatado à população pelas palavras puras de uma criança…”

“Espere!” pensou o garoto. “Algo se moveu logo à frente.” Então se aproximou de uma moita enegrecida e escondeu-se em meio as folhas escuras.

“Mandaram o homem à fogueira, mas, quando as chamas o lamberam, ele gritou ‘Teu fogo não irá queimar-me,  pois sou mensageiro de Deus!’, mas responderam a ele ‘És, na verdade, cria do diabo!’”

O estudante correu os olhos pelo lugar e notou sulcos no chão, passou a segui-los, fazendo a menor quantidade de ruídos possível, ouvindo apenas a chuva, os relâmpagos, o “chap-chap” das botas com a água e a voz do velho em sua cabeça.

“As labaredas não mataram o homem, apenas queimaram sua pele, mas ele vivia ao fim do processo, tal como ele dissera. Mas os homens são hipócritas e ignorantes, viram aquilo, não como uma proteção divina, e sim como bruxaria. Mandaram decapitá-lo na mesma noite escura…”

Algo, definitivamente movera-se e o corajoso estudante ouviu passos rápidos. Virou-se, moveu os cabelos molhados para melhor enxergar. Sentiu um arrepio muito mais forte.

“Todos assistiram a cabeça do padre rolar, espalhando sangue a todos os sedentos que assistiam sua sentença. Puseram o velho em uma gaiola de frente à sua igreja, para que ele fosse perdoado pelo Criador…”

O jovem sentiu uma baforada quente às suas costas, ele tremeu, mas não por conta do frio. Virou-se e encontrou um enorme cavalo, forte e musculoso, preto como seus maiores pesadelos.

“Estávamos enganados…”

Montado no corcel, um corpo com roupas de couro e cheiro de carne queimada segurava a cabeça da mulher morta.

“Na manhã seguinte, o corpo havia sumido. Dizem que o padre revoltou-se com Deus e fez um pacto com Lúcifer, tornando-se um sacerdote do maldito, naquela madrugada escura. A criança jamais foi vista, contaram que ela era o próprio mal encarnado, que o padre está fadado a aterrorizar esta cidadela… E que o corpo, o corpo virou um errante, montado em um cavalo feito com o tecido da noite, matando todos que cruzavam seu caminho. Tirando-lhes…”

A cabeça do estudante foi arrancada antes de lembrar-se do fim da história.


Este conto é uma releitura da “Lenda do Cavaleiro sem Cabeça”, os fatos e a história não correspondem ao conteúdo original, foram modificados e adaptados para a narrativa desta história.

 

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