Costelas – O Circo Voador

Na maior cabina da grandiosa estrutura voadora, o mágico estava curvado sobre um mapa antigo iluminado pela chama de uma vela.
Pela janela aberta, entrou uma forte correnteza de ar. Foz olhou para a vela, questionando-se se ela resistiria. A chama curvou-se diminuta, tremulando como uma bandeira e, por um instante, ameaçou morrer, mas logo depois cresceu, dançou no ar por alguns instantes, zombando do vento e depois voltou à posição original.
O mapa mostrava uma vasta região com uma rota, com locais por onde já passaram marcados com um “x”. A trupe circense assaltava cada lugar por onde se estabelecia em sua turnê, mas nunca faziam roubos grande demais, apenas os tolos chamavam atenção. Eles roubavam só o suficiente para sobreviverem até a nave chegar na cidade ou vilarejo seguinte.
Uma batida na porta tirou a atenção do gordo rechonchudo de bigodes. Ele se ergueu na cadeira e gritou:
-Entre! – Ele já sabia quem era.
Uma jovem de pouco mais de vinte e cinco anos abriu a porta e deslizou para dentro do recinto.
Ela estava com uma calça listrada de preto e branco que subiam na vertical e ficavam afiveladas por um cinto um pouco acima da cintura, se estendendo até os tornozelos, fazendo as pernas da moça parecerem muito maiores. Por baixo de uma jaqueta vermelha, uma curta blusa preta deixava a barriga amostra.
A cabeça era raspada e as feições finas, mas fortes. Os olhos negros contrastavam com a pele alva e o toque final eram os intensos lábios vermelhos que hipnotizariam qualquer homem.
Liz, a filha do mágico e sua assistente de palco. À meia-luz de um candeeiro próximo à porta, ela parecia um fantasma pálido e sedutor.
-Pai, o chef disse que o senhor pode ir escolher os pratos.
O mágico era o chefe da trupe circense, ele bancava praticamente todos, então ele sempre escolhia o que iria comer na janta, o que sobrasse seria distribuído para o resto dos artistas.
-Como acha que será a janta de hoje? – Perguntou limpando o óculos e arrumando-o sobre o nariz.
-Apetitosa. – Disse com um sorriso.
Foz saiu da cabina e trancou por fora. Apalpou a garota e seguiu a filha até uma mesa no salão de jantar e cumprimentou o chef, um homem asiático baixinho com um fino bigode e olhos muito estreitos. Trajava uma roupa branca típica de cozinheiro, fechada por abotoaduras vermelhas no peito e nos pulsos.
-Boa noite, Mo.
-Boa noite, senhor. O que deseja para hoje?
-Costelas malpassadas acompanhadas de uma porção de arroz. – Considerou por um momento com o indicador levantado – Quero língua hoje também, faz tempo que não como.
-E para beber, senhor?
-Algo mais novo, 8 anos, quero beber os mais velhos em ocasiões especiais, Mo.
-Excelente, senhor.
Mo foi até a cozinha, lavou as mãos e seguiu até o frigorífico que ficava atrás de uma pesada porta de ferro logo ao lado da cozinha, de forma que os cozinheiros não precisariam transitar entre outras saletas, corredores ou cabines da nave.
Pôs a mão na maçaneta e virou, ouviu o clique da fechadura.

Lembrou-se na hora. Onde estava com a cabeça? Esquecera-se do cutelo na cozinha. Correu alguns instantes para pegar a lâmina que considerou mais limpa com o fio mais aguçado. Foz odiava quando a comida ficava suja, por esse motivo, Mo limpava a carne todo dia.
Voltou para a porta. Apertou a maçaneta e girou, ouviu um clique e abriu a porta, para, instantaneamente, sentir uma rajada de frio.
O cheiro era algo com o qual estava acostumado e não o incomodava.
Andou por algum tempo esquadrinhando os garotos e as meninas, avaliando qual seria a idade de cada uma das crianças. Se tudo desse certo, ele poderia aproveitar o sangue e o resto da tripulação não comeria tudo em seco.
Escolheu uma menina que deveria estar na faixa etária desejada, era loira e não parava de chorar e soluçar, apertando a mordaça com toda força possível.
Mo tirou a mordaça da boca da menina e brandiu o cutelo.
Na mesa, Foz se contorceu de prazer ao escutar o sinal de que sua comida já estava sendo preparada.
Na cabina, uma corrente de ar invadiu o recinto e atacou a vela.
A chama curvou-se por vários momentos, resistindo à correnteza, mas, por fim, cedeu à ação natural e a cera que a prendia no pires não aguentou e fez a vela cair na mesinha, apagada.
Estava morta.


Conto original

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