Assalto à vapor

Já era tarde da madrugada e o Sol deveria nascer em poucas horas, jogando através das janelas, raios dourados e alegres. Mas antes da aurora trazer a felicidade, antes dela nos lembrar que todo dia podemos fazer algo novo, a noite está lá. Fria, impassível e gigante, a escuridão noturna impõe medo, fazendo todos se esconderem em suas casas indo dormir, para que logo aquele momento passe, para que do Leste brote aquela centelha divina.

Porém, há aqueles vivem no lado escuro e aproveitam a noite, onde as ruas são terra de ninguém.

Um carro, carregado com dinheiro que deveria ser transferido para o banco, vinha a toda velocidade em uma rua qualquer exalando fumaça de seu escapamento, quando Ignatius desceu o seu braço com armadura mecânica bem na frente da lataria do automóvel. O carro empinou e o motorista foi jogado contra o vidro do automóvel instantaneamente, trincando a superfície. O carro parou logo em frente a um poste de luz no estilo art noveau, que iluminou melhor o ladrão. A fumaça do carro começou a subir.

Era um homem de meia idade, alto, cabeça raspada, queixo quadrado e expressão sisuda. A boca mais parecia uma reta inexpressiva cercada por uma barba preta e um ou outro fio grisalho. Ele trajava um equipamento feito de bronze, mas com detalhes de um amarelo morto, provavelmente latão. Ela cobria toda as costas do homem, era afivelada na frente e alguns dutos ligavam-na às pernas e aos braços. O aparato não era nem de longe uma armadura, era um adereço, em verdade, que potencializava as capacidades de Ignatius. Por debaixo da carcaça metálica, usava uma blusa preta de mangas longas, com um colete de um roxo muito escuro. Seus olhos estavam cobertos por óculos de laboratório, com os quais ele podia ampliar sua visão.

O vilão andou até a parte traseira do carro, forçou um pouco as dobradiças da porta e puxou a fechadura. Lá de dentro, ele avaliou a saca que parecia mais rechonchuda e considerou o peso, tomou uma que carregava cédulas, não moedas, o ferro pesava demais. Pegou-a pela boca e fez um nó extra para evitar complicações.

Enquanto isso, os outros dois carros que acompanhavam a transferência, haviam parado nas localizações opostas da rua, prostrando-se um de cada lado, como barricadas, para evitar que o ladrão fugisse. O oficial correu até a cabine telefônica mais próxima para chamar reforços.

Do outro lado, o outro oficial atirou com sua simples arma, mas o tiro ricocheteou em alguma parte metálica e voou. O oficial se escondeu atrás do carro, teria que recarregar o precioso tiro que acabara de sair voando.

Ignatius tomou aquele tiro como um casualidade, mas não iria jogar dados com o destino, por ventura, se algum home acertasse-lhe alguma parte do corpo que não estava coberta por seu equipamento movido à carvão e gás, ele estaria acabado.

Em um prédio, o herói olhava pela sua janela. Observou que algo perturbava a noite, que as pessoas gritavam de suas janelas, acordadas pelo alvoroço e que uma fumaça estranha se projetava do centro confuso do emaranhado de prédios. Miguel vestiu seu traje e girou as manivelas para apertar a mochila de ferro nas costas.

Em instantes, ele já havia chegado ao local onde o vilão perturbava a ordem.

Decerto, o prejuízo causado por Ignatius, já era muito maior que a quantia de dinheiro que ele carregava na saca pesada em uma das mãos com a luva de bronze. Vários carros já haviam chegado e parado ao redor, com o mesmo intuito dos dois primeiros, cercar o homem e fazer barricadas. A polícia olhava mais com receio que com autoridade para o bandido, apontando armas que a maioria nunca sequer havia usado.

O Herói colocou um pano cobrindo seu nariz, para proteger sua identidade e puxou um par de óculos escuros presos com amarras de couro para não lhe fugirem da cabeça e cobriu os olhos. A única parte visível era seu cabelo castanho claro e curto.

Seu equipamento era deveras diferente do de seu adversário. Miguel usava joelheiras e cotoveleiras de ferro. Seu traje não era feito para ser completamente funcional, tirando o medidor que ele tinha em seu pulso, nada mais era conectado à seu propulsor. Por debaixo das vestimentas amarela, ele tinha apenas proteções nas pernas e braços, e no peito uma placa fina. Também usava uma luva de ferro, para eventuais conflitos. A mochila era o que proporcionava seu voo, soltando rajadas de vapor. Ela se prendia no peito com uma série de engrenagens que o jovem alterava para que ela funcionasse como ele quisesse.

O vilão notou a real ameaça quando presenciou a chegada de Miguel. Ignatius puxou o poste de luz e arrancou-o de seus eixos, virou o porrete improvisado e acertou a lateral do Herói, que recebeu o golpe direto nas costelas, causando uma dor lancinante. Aproveitando-se da surpresa e da momentânea incapacidade do oponente, correu por um breve instante e se jogou no ar, caiu por uma fração de segundos, e, quando propulsores movidos à gás entraram em ação, ele se estabilizou e voou para o céu cheio de fumaça. Deixando os policiais embasbacados e seu inimigo para trás.

Em poucos instantes, Miguel levantou-se, aturdido pelo ataque repentino, não iria demorar para que os policiais achassem que ele poderia ter alguma ligação com o ladrão, mesmo com a agressão explícita. Não perdeu tempo, correu na mesma direção do inimigo, subiu no capô da carruagem, pisou no teto com um pé e saltou, ativando também seu aparato à vapor, para continuar sua busca aérea.

No céu noturno da cidade industrial, localizou o Vilão à distância e mirou alguns metros acima dele. Para fazer a manobra que desejava iria gastar todo o combustível de sua mochila. Só teria uma chance. Com a mão direita, girou uma engrenagem grande que controlava a velocidade, sobre o peito esquerdo. Olhou o relógio com o medidor de combustível na parte debaixo do pulso esquerdo e o viu descer vertiginosamente, enquanto ele era lançado como uma bala em um arco no ar.

Olhando por cima do ombro, enquanto fugia, o vilão notou que havia alguém o perseguindo. Mentalizou as prováveis ideias do oponente e notou que ele aumentou absurdamente rápido de velocidade, se aproximou em segundos. Quando deu por conta seu rival iria encostar nele em poucos instantes! O que pôde fazer foi diminuir abruptamente a velocidade, tentando se lançar para trás. Mas o que aconteceu não foi eficaz o suficiente e ambos se chocaram, indo contra os planos dos dois.

Sem nem perceber o que estava acontecendo, Miguel desceu um canhoto na bochecha de Ignatius e eles estavam em queda livre. O saco com várias cédulas saltou com o impacto e notas verdes e alaranjadas voavam, para a alegria de várias pessoas.

Engalfinhados na briga aérea, a dupla trocava socos e pontapés, Ingatius tentava, à todo custo, soltar-se de seu formidável oponente.

Eles caíram em uma rua, acertando o chão várias vezes no processo e arrancando a superfície de pedra.

O Vilão puxou o Herói pelo braço e o jogou de encontro a uma parede sólida o suficiente para ficar de pé com o impacto de todo o equipamento somado ao do rapaz. Correu em direção oposta ao lugar onde deixou seu nêmesis e saltou no ar. Novamente, experimentou a sensação de cair por um breve momento, e, logo depois…caiu de novo. A estrutura propulsora de uma perna estava com defeito e não conseguiu executar sua função com êxito. Miguel já correra e pegara sua outra perna, agarrando o inimigo e puxando para perto, para desferir um soco na barriga. Em resposta à ofensiva o Vilão chutou o queixo do outro com a perna livre.

O impacto do chute, fez Miguel cambalear, mas ele persistiu no aperto à perna do Vilão e o fez permanecer no solo. O herói colocou a perna de Ignatius presa embaixo do braço e desceu uma cotovelada contra o joelho, apesar da dor que Ignatius sentiu, ele conseguiu se livrar do aperto do adversário e se afastou alguns metros.

O homem careca saltou no ar, flexionou a perna e fez o movimento para chutar o peito de Miguel, no meio do caminho ele se aproveitou do mecanismo de propulsão da bota que ainda funcionava e acertou de forma colossal o tórax do rapaz, quebrando várias engrenagens da mochila e o fazendo terminar de quebrar a mesma parede na qual o havia jogado antes.

Miguel ficou aturdido por um instante, recobrou a visão quando via Ignatius se aproximando à passos largos. Pegou uma pedra enorme do chão e arremessou. Com a visão ocupada, o vilão, instintivamente projetou um soco na pedra, que se esmigalhou. Mas a surpresa veio depois, quando o campeão correu por detrás da pedra e agarrou o braço do vil homem, ainda estendido. Não mediu forças e puxou-o com tudo para baixo. Quando o queixo dele já estava baixo, projetou sua vingança em uma joelhada no queixo dele. E depois acertou a parte de cima da cabeça com o cotovelo, causando um impacto duplo e várias fraturas na cabeça.

Ao redor da cena, vários curiosos já haviam-se feito e Miguel deixou o oponente desacordado no chão, antes de cair sentado ofegante. Observando todos ao seu redor. Admiradores que se aglomeravam enquanto a poeira descia. Precisava descansar, olhou para o céu por um instante, vendo brotar a centelha divina da aurora e depois desmaiou.


Conto original

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