Incêndio

Cá estou eu, fantasiando-me de Dom Casmurro outra vez.

Me perdoe a falta de criatividade, sei que Brás Cubas já falou assim antes, mas é provável que quando você estiver lendo, até os primeiros vermes que comeram meu corpo, já estejam mortos a muito tempo.

Agora os motivos que me levam à máquina. Sinto-me cada vez mais infeliz e com tamanha depressão que acho que até mesmo aquela dona da foice tem pena de mim e deixou de me procurar. Também me convém a ideia de deixar para alguém esse fardo de conhecer minha vida. Não é nada nobre, eu sei (mas de quem é a narrativa?).

Antes de continuar, essa história será de muito maior proveito, se a ler imaginando um velho solitário em sua sala de estar.

Creio que será necessário utilizar uma linguagem simples para que possa entender, não quero que meu texto demore para ser compreendido e quero que até mesmo uma criança possa tomar este papel em suas mãos e lê-lo, para ter, pelo menos uma vez na vida, uma história que vá entender.

E acho digno começar com meus anos de meninice.

Para ser franco, sempre gostei muito mais de teatro a sair à rua, fui uma criança diferente. E se quer saber me considero jovem. Tenho minhas boas décadas passadas, mas não vividas.

Não nasci de uma pisadela e um beliscão, como alguns sargentos por aí. Na verdade, nasci de uma Senhora que casou-se com o homem que a trocou por outra, mas isso não vem ao caso.

Meu pai era, em verdade, um Imortal da Academia, mas nem procure, não acreditaria se eu contasse quem ele era.

Acho que as cortinas podem ser abertas agora. Conheci a moça com quem me casei, quando tinha sete anos.

Meu pai esperava a visita de um Imortal francês que, dizia ele, iria estar de passagem pelo Brasil. O homem chegou de navio em um dia indiferente da semana, apareceu com uma roupa extravagante e algumas bagagens. Colada a esse homem havia a menina mais estranha que eu já vira na minha vida inteira.

Para começar era roliça, e eu diria até anã para a idade, usava um corte de cabelo preso para ambos os lados, um vestido xadrez, tinha os olhos esbugalhados para fora, acho que posso ser bom e melhorar o quadro dizendo que tinha dentes não de todo feios.

Mas seus cabelos. Desses eu me lembro. De ter me apaixonados por aqueles cabelos flamejantes e ardentes.

Seu nome era Margot, uma perfeita daminha francesa.

Tinha a voz mais estridente que eu conhecia e eu odiava ouvir aquela miúda falar uma mistura de português e francês. Era aterrorizante.

Mais tarde descobri que o Imortal francês não tinha nada de Imortal. Sei porque vi ele se engasgar com o vômito depois de chegar bêbado em casa e cair duro no chão da cozinha, ainda segurando a pinga em sua mão.

A garotinha ficou sob a guarda de meu pai. Sei que pode parecer estranho, mas tecnicamente nem éramos irmãos, mas crescemos juntos. Isso até meus dezessete.

Acho que o primeiro ato de minha vida deveria acabar assim, com a Margot crescida, bonita, magra, de seios fartos e os mesmos cabelos de fogo que tanto amei.

Ora, se sou eu quem escrevo, esse é o fim do primeiro ato.

Não vou te encher a paciência com toda a história de meus dezessete até os 25. Só precisa saber que durante esse tempo tentei aproveitar a vida com meu talento nato passado a mim por meu pai: a escrita.

Mas aparentemente os escritores não acham que isso possa ser um talento passado de pai para filho e me recusaram na primeira oportunidade que tiveram.

Também não os quero mais, velhos gordos que se apaixonam por garotas jovens e que escrevem sobre pessoas com vidas secas.

Creio que o meu segundo ato pode começar com uma música de piano.

Lembro-me de como Margot sentava-se ao piano de nossa casa. Naquela imensa sala.

Foi nessa sala que a pedi em casamento. Nossa melhor farra. Dois jovens aproveitando o dia como se fosse o último.

O casamento foi na igreja logo ao lado de nossa casa, foi bem cômodo.

Olha leitor, eu gostaria de falar que nos amamos para sempre e fomos felizes. Pode buscar outra história se quiser um final assim, mas essa aqui ainda vai render algumas linhas.

Margot nunca conseguiu ter filhos. O que acabou sendo bom, porque não ficou grávida de nenhum dos amantes que trouxe para a MINHA CASA. Mas eu a amava.

O segundo ato pode acabar com um incêndio. E acabou.

Depois dos fatídicos meses após Margot falecer no incêndio de nossa casa. Eu me tornei solitário e rabugento. Pode parecer que era algo fadado a acontecer, mas é comum olharmos o futuro que desponta no horizonte e acabar tropeçando no presente que está aos nossos pés.

Diferente dos meus saudosos colegas, não afoguei minhas mágoas em bebidas. Tentei afoga-las na água salgada que eu mesmo produzia.

Ah, como eu me lembro dela.

Mas a imagem de Margot com o cabelo em chamas nunca saiu da minha cabeça.

Não deixou de ser irônico, pensei mais tarde, e me senti meio culpado de ter dado uma risada tristonha.

Quanto ao terceiro ato, você me pergunta. E eu digo, está acabando. Ele foi o primeiro que comecei.

Dizem que o amor é fogo que arde e não se sente. Eu creio que Margot sentiu esse amor.

Um dos motivos que me faz escrever é o medo.

Às vezes me pergunto, se eu tivesse deixado Margot sair da casa em chamas. Ela me perdoaria?

Acho que devo perguntar pessoalmente a ela. A essa altura, já devo estar chegando lá.

Até a vista, leitor.

Fim do Terceiro Ato.


Conto original, mas inspirado pelos clássicos da literatura brasileira.

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