A troca

Deitada, como um abutre sanguinário, a Criatura observava a cidade. De cima da construção, seus olhos esquadrinhavam cada recanto, nesse plano astral ou no outro.
Ela abriu os braços, e o corpo esguio e magro ficou à mostra. Jogou-se em direção ao chão, vários metros abaixo, o rosto seco e sem pelos, assim como todo o avatar assexuado. Os milênios nunca mudaram a figura de extrema magreza e os olhos totalmente enegrecidos que compunham a tela pálida.
Ao tocar o chão, não sentiu impacto algum. Em vez disso, as sombras ao seu redor envolveram-lhe o corpo, formando uma manta disforme e insólita. A vestimenta escura e horrenda transformava-se a cada passo calmo e frio que a Criatura dava. Sem pressa, ela aproximou-se do corpo morto no chão e estendeu uma mão para a cabeça do jovem sem vida. Com um dos dedos, tocou a testa do defunto. Seu trabalho estava feito.
Trespassou uma porta perto dali e encontrou uma mulher sob lençóis e edredons, suada e sem vida. Do lado oposto da cama, de pé, havia outra criatura igualmente magra e tão antiga quanto. Trajada de um manto branco e intangível, e aparentemente translúcido, ela assentiu. Juntas, as duas estenderam a mão para tocar a mulher. Uma levou a mão à cabeça e outra à barriga da senhora.
Houve um breve período de silêncio no escuro e então, um bebê chorou e uma luz se acendeu em alguma janela.


Conto original

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