Faustus [1/3] – O Circo Voador

O Circo Voador já estava há três dias em uma cidadezinha esquecida pelo próprio Estado. De fato, era uma economia pequena, mas que crescera o suficiente para terem dado a ela o status de importante o bastante para ter um próprio prefeito.

No entanto, mesmo com a passar dos anos, e a industrialização crescente em pólos econômicos do país(como se é de esperar), em lugares como aquele não era surpresa para ninguém o voto de cabresto. Os próprios eleitores sabiam disso e não ligavam muito, é verdade. Cada um só passava sua vida dia após dia sem mudar nem mesmo o caminho que tomavam para ir de um lugar até o outro. Ganhava a eleição naquele fim de mundo, quem fizesse uma promessa mais conservadora ou molhasse mais a mão de algum locutor de rádio ou televisão local para que fosse feita uma boa propaganda.

Não mais que dois candidatos disputavam as eleições, um de uma família X outro de uma família Y, o que não fazia tanta diferença, porque, apesar das ideias “diferentes” ambos, no fim sempre governavam como o anterior.

E eram em cidades assim que o título de curral eleitoral fazia mais sentido, mesmo com uma mula conduzindo as vacas.

O prefeito da vez era corpulento, careca e sem pescoço. Os olhinhos ficavam atrás de um par de óculos escuro, apoiado nas orelhas de abano do gordo. Faustus era como se chamava oficialmente, mas, pela oposição, seu nome é Doutor Pacto – porque qualquer contrato que o fizesse ficar mais tempo no poder, ele assinava. Era, claramente um homem malandro, que vivia às custas dos trabalhos das pessoas ao seu redor, sobretudo das cabeças que pagavam suas contas. Tinha uma papada que escorria por baixo da boca e se misturava ao peito, o que o tornava ainda mais balofo, já que ele mais parecia um pedaço flácido de gordura que ganhou vida e um óculos de brinde.

Já o Circo Voador estava ali não intencionalmente, mas estava servindo ao caso a estadia momentânea naquele lugar. Para não levantar olhares tortos ou duvidosos, eles acabaram por se instalar para apresentações quase regulares até o problema nos balões de suavidade serem contornados.

O que iria fazer com que alguém da trupe encontrasse material para costurar as bexigas de ar quente. A nave poderia sim voar sem os grandes balões, mas sair do solo ou aterrissar tornaria a tarefa mais custosa tanto para os combustíveis, como em questão de tempo. E até agora demorara tanto porque era necessário inflar a estrutura sempre que eles faziam a costura, e a tarefa tinha proporções milimétricas; ajustar para que o balão não ficasse leve demais ou pesado demais, pendendo para um lado ou para o outro, se não havia lugar por onde o ar quente escapasse…

Tudo por culpa de um espertinho.

Dentro da embarcação pousada, um diálogo se desenrolava.

Faustus comia um enorme pedaço de bife em seu prato de frente para Foz, no salão de jantar da embarcação. Ele não fazia tanta cerimônia e não ligava se suas mãos estivessem sujas da comida e fazendo os talheres deslizarem por seus dedos gordos. Para uma figura política, ele parecia mais um homem bruto avido de seus desejos.

Ele usava sua calça cinza tamanho Extra-GGG, uma blusa que mais pareciam duas costuradas, até as os punhos onde ela era apertada e o que mais chamava atenção de Foz era a como o colarinho ficava ente a papada e a barriga, como se o próprio Faustus não soubesse mais onde deveria ser seu pescoço. A aliança na mão do gordo já perdera sua esperança de sair anos atrás.

Foz, por sua vez estava elegante. Tinha também seu excesso de gordura, mas não era tanto quanto o do prefeito, e ele conseguia disfarçar muito bem. A calça cinza levantada por suspensórios vermelhos combinava com a camiseta branca que o mágico estava usando em sua mesa. Apesar de, em muitos momentos, Foz ceder à seu lado primitivo, em situações como aquela ele sabia muito bem se portar como um duque educado.

-Então, senhor Foz, entende o que eu quero? Uma mão lava a outra. – Foz via pedaços de comida voando enquanto Faustus falava de boca cheia..

-Sim, entendo. – O mágico resumia-se a beber o que estava em sua taça. – Quando eu receberia meu pagamento?

O homem meteu a mão e tirou do bolso da calça um papel todo amassado, provavelmente de quando ele se sentou à mesa, e o passou para o anfitrião.

Foz só olhou para o papel engordurado.

-Na verdade, Doutor Faustus, não sou eu quem irá tratar deste assunto com o senhor.

-Não? – O homem surpreendeu-se por um instante.

-Não, de fato. Diga-me, Faustus, quer mesmo ganhar esta eleição?

-Mas é claro!

-Pérola é nossa médium, Doutor Faustus. Ela também é muito boa com negociações, sabe? Liz, minha filha pode lhe mostrar onde encontrá-la.

Faustus ficou confuso nesse momento. Que diabos de negociação você faz com uma médium? Não era o mágico o chefe do Circo? O gordo se levantou depois de enfiar uma enorme garfada de bife e tomar um gole da bebida, não fez protesto algum.

Foz se questionou se o homem usaria o guardanapo e sua intuição se provou verdadeira quando o visitante passou as mãos na camisa a na calça para se limpar. O seboso gingou até a porta onde o mágico esperava e ambos saíram para o corredor da embarcação.

O prefeito seguiu Foz por um corredor parecido com todos os outros corredores por onde andara naquela nave, questionando-se se houve algum projeto na construção da embarcação. Faustus, de alguma forma, sentia que algo estranho estava acontecendo naquele lugar e começou a suspeitar de que aquela sensação podia-o fazer enlouquecer.

Depois de um tempo, teve certeza de que já o estava fazendo.

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3 comentários

  1. Existe uma metáfora em relação ao governo brasileiro? Entendi que sim.
    Faustus é o próprio governo, gordo por comer a comida do povo, podre – que representa sua personalidade – e não tem tanta vergonha de ser assim, até por que ele não percebe o que ele é na visão do autor.

    Curtido por 1 pessoa

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