Faustus [2/3] – O Circo Voador

ATENÇÃO – PARTE 1 AQUI


Enquanto caminhavam, nenhum dos dois disse palavra alguma. Faustus achava que se não estivesse acompanhado, ele se perderia no emaranhado de dobras dos corredores, para ele, em todo lugar que viravam, tudo parecia igual. Uma coisa era verdade, cada lugar ali dentro parecia ser bem aproveitado. E era agradável aos olhos, de certa forma, mesmo com seu jeito desengonçado.

Os dois pararam à porta da embarcação voadora, de frente para a saída. O mágico fez um sinal e uma garota, que Faustus deduziu ser a filha do mágico, se aproximou. Liz, então.

-Filha, o Doutor Faustus aqui quer fazer um acordo, leve-o até a Pérola, ele está levando o pagamento.

Liz olhou o gordo prefeito, que esperava se reeleger em breve, dos pés à cabeça. Por mais que a garota pensasse no quão o homem deveria ser arrogante e egoísta, guardou os pensamentos e impressões para si, apenas cumpriu a tarefa dada à ela pelo pai.

Várias barracas do Circo Voador estavam montadas, mesmo de noite. Não era necessário guardar tudo para remontar no dia seguinte e ninguém ali tinha medo do que poderiam roubar. Qualquer coisa que fosse afanada, eles recuperariam sem problema algum.

Obviamente, raras pessoas transitavam no circo pela manhã, era quase meio-dia e o calor era o grande responsável pela concentração de clientes ir pela noite. As pessoas que estavam ali, aguentando o sol quente, mal podiam aproveitar as poucas tendas ou barracas que foram montadas, já que algumas só iriam abrir pela noite. A barraca pequena da médium Pérola era uma das que esperaria o fim do dia para funcionar, mas faria uma exceção.

Quando ambos entraram na barraca coberta com um toldo roxo, uma mulher veio falar com eles.

A barraca tinha uma mesa de madeira retangular no meio, algumas cartas espalhadas e muitos ornamentos nas paredes. Vindo da parte detrás da divisória da barraca, um cheiro de incenso se insinuava no lugar, invadindo o nariz dos que estavam ali.

Faustus esperava uma mulher velha cheia de turbantes, pulseiras, anéis, argolas e qualquer coisa que fizesse barulho, mas era apenas uma senhora com pouco mais de 50 anos. O único ornamento que a mulher usava era um colar branco com um pingente.

-Pérola, meu pai me mandou acompanhar o Sr. Faustus até aqui. Disse que ele quer fazer um acordo. – Liz falou como se o gordo não estivesse ali.

Pérola olhou para o homem por um momento e depois voltou a ignorá-lo.

-Ele trouxe o pagamento?

-Sim, eu trouxe. – Disse Faustus e Liz percebeu que ele ainda carregava o envelope amassado e engordurado. Ele levantou o pagamento.

-Muito bem então.

A mulher estava com um vestido azul e leve que cobria as até os tornozelos e ela fez um gesto para Faustus se sentar à mesa.

-Isso será rápido, Sr. Faustus. – Ela fez um silêncio e, quando ele não acrescentou nada, continuou. – O que quer?

-Ser reeleito daqui a dois dias.

-E o que está disposto a pagar?

-O quanto for necessário, posso recuperar tudo nos anos seguintes, ou até mais. – Ele riu mostrando os dentes grandes. E colocou o pacote de dinheiro na mesa. Pérola não deu atenção ao pacote.

-E o que quer que façamos?

-Uma propaganda minha nesses dois dias. As pessoas vão gostar e nem vai custar tempo de vocês, não é mesmo?

-Só isso então? – O homem assentiu do outro lado da mesa.

Faustus esperava que a mulher fosse puxar algum documento para ele assinar, ou falar palavras mágicas de médium, mas, aparentemente, Foz só queria empurrar esse dialogo minúsculo para outra pessoa.

-Temos um acordo? – Disse o prefeito erguendo a mão.

-Temos, Doutor Faustus, temos um pacto. – A mulher apertou a mão gorda do homem com ambas as suas. – Agora, prefeito. O senhor gostaria que eu lesse seu futuro? Posso ver grandes coisas. – Disse ela enquanto mexia com o pingente.

-Desculpe, senhora, mas acho que eu já sei meu futuro. – Ele abriu um sorriso tordo. – Não precisa me acompanhar, eu sei o caminho.

Sim, o acordo fora feito. Faustus ainda se perguntava que diabos de acordo foi aquele. Sem nenhum contestamento de valor, sem nenhum documento assinado. De qualquer forma, ele preferiu assim, desse modo ninguém teria provas que ele desviou dinheiro para uma campanha de última hora. Mas ele também se sentia diferente, como se tivesse ganhado um novo ar.

Sim, o Circo Voador fez umas breves propagandas, dizendo que os “dias extras” que o Circo ficou foi por patrocínio do excelentíssimo prefeito Faustus, e que deveriam votar nele para que um dia o Circo voltasse.

Sim, o prefeito Faustus foi reeleito dois dias depois, no mesmo dia em que o Circo Voador partiu com seu balão recém costurado.

Sim, o pagamento foi feito.

-Querido, acho que você emagreceu um pouco. – Disse-lhe a mulher quando ele saiu do banho com sua toalha gigantesca. – Tem feito algo?

Sim, Faustus estava fazendo algo, estava comendo feito um porco desde que ficara mais calmo com o fim da eleição.

-Não, acho que só estou me alimentando melhor.

O que passara a acontecer com uma certa frequência com o prefeito foi esse acontecimento das pessoas dizerem que ele parecia mais magro. Dia após dia, ele realmente parecia emagrecer. Até que quando ele se olhou no espelho, encontrou novamente o pescoço. Milagres aconteciam, então.

Até que um dia, quando ele saia do banho, sua mulher falou.

-Querido, você parece mais jovem.

Ela se aproximou dele com um olhar desconfiado.

-Tem feito algo?

-Não sei, essas semanas foram estranhas. Passaram a me dizer isso direto.

A mulher o olhou no fundo dos olhos. Sabia que ele roubava, sabia que ele não era santo, mas ela não ligava. Casamentos assim eram movidos justamente pelo dinheiro roubado.

Faustus não se lembrava da última vez que tivera tanta energia no corpo. De se sentir tão bem. Ele tomou a mulher nos braços e tirou a toalha.

Nos meses que se passaram, o homem gordo passou a ser um homem viril e forte, como se o Faustus de antes tivesse sido deixado de lado, ou até mesmo morrido. O prefeito não sabia o que acontecia, mas ele passou a aproveitar cada momento de sua nova vida de jovem. E ele tinha tudo o que poderia querer, o dinheiro, a cidade e quantas moças quisesse.

Faustus nunca achou ruim o que estava acontecendo. Nunca vivera momentos tão estranhos, exceto vez ou outra não achar suas canetas ou chaves, mas isso era pela sua péssima memória, ele sempre comprava outras.

Dois anos depois dele começar a emagrecer, Faustus já esquecera completamente o Circo Voador.

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