Faustus [3/3] – O Circo Voador

ATENÇÃO! PARTE 1 AQUI  PARTE 2 AQUI


Foi no final do ano, em Dezembro, que Faustus percebeu que sua toalha sumira. Mas desta vez, ele lembrava vividamente de tê-la colocado ao lado da saída do banheiro.

-Querida, você pegou minha toalha? – Disse de dentro do banheiro. Não veio resposta. Ele repetiu a pergunta mais alto. Novamente sem resposta, Faustus saiu do banheiro pelado e foi para o quarto se secar.

As roupas gigantescas agora não mais lhe serviam, então quando ele comprou novas, fez questão de serem elegantes e finas, para lhe valorizar o corpo. Pôs uma camisa social azul marinho e uma calça preta. Saiu do quarto com o cabelo despenteado ainda.

A casa era gigantesca e Faustus tinha certeza de que haviam cômodos pelos quais ele andara apenas uma única vez. A luz sobre a porta iluminava só até o final do corredor, onde havia uma escada virando à esquerda.

-Helena?

Haviam três quartos no andar de cima, mas nos quais Helena quase nunca entrava.

Faustus saiu do quarto e seguiu até o topo da escada. Ligou a luz do andar inferior da casa e procurou pela mulher desaparecida.

Pôs o primeiro pé no degrau e começou a descer lentamente. A ideia de que existisse algum ladrão na casa o perturbava. Mas nós temos seguranças! Mesmo assim alguém podia ter invadido. Alguém da oposição. Ou talvez… E se Helena tivesse fugido? Com aquele repórter da entrevista exclusiva! Aquele pivete filho da puta!

Faustus desceu cinco degraus, quando ia descer o sexto, ouviu uma voz.

-Faustus? É você, querido? – A voz vinha do andar de cima. Helena havia entrado em um dos quartos em que ele não olhara.

-Sim, sou eu. Diabos, Helena, achei que você tinha sumido!

-Eu entrei aqui no quartinho para procurar pilhas para o controle.

Faustus suspirou aliviado e subiu as escadas.

Já estava quase terminando e lance de degraus quando a mulher olhou para e tomou um susto com um gritinho fino e deu um pulo para trás. Faustus viu seus dedos com as unhas pontudas apertarem um controle remoto com força e suas narinas dilatarem. A postura ficou rígida e os olhos arregalados, a pele ficou pálida.

-Faustus! – Ela gritou olhando para a escada atrás do homem.

-O que foi?

-Não se mecha! – Ela apontou o controle tremendo para frente. – Não se mecha! Faustus!

-Mas que merda é essa?

-Faustus, invadiram nossa casa! Socorro, Faustus! – A mulher já gritava desesperada e virou se costas para correr para o quarto. Faustus viu ela batendo a porta e ouviu a tranca sendo fechada.

Ele desceu as escadas correndo. Um ladrão? Não pode ser.

Faustus sabia o caminho decorado até a cozinha, ele teve que admitir, estava assustado também, mas agora ele era jovem e forte, destemido até, então deixou as luzes apagadas para caso encontrasse o invasor. Andou fazendo o mínimo de ruídos possíveis e até mesmo prendendo a respiração até chegar nos armários onde guardava um antigo facão enferrujado.

Pegou-o pelo cabo e escondeu atrás das costas e se encolheu atrás de uma mesa de jantar próxima, esperando o malandro passar para lhe dar uma surra.

Faustus viu uma luz se acender na sala que dava para as escadas, onde estava suas reservas monetárias e seus aparelhos caros junto com a mulher. Ele se levantou e colocou a cabeça para fora do cômodo onde estava, para poder espiar a sala que estava com a luz acesa. Haviam três homens gigantescos, talvez mais do lado de fora. De fato, seria preciso esse tipo de assalto para passar pela segurança de Faustus, um assalto organizado.

O prefeito deu alguns passos para trás para repensar sua estratégia, talvez cada um separadamente… Ele sentiu algo contra o seu calcanhar e já era tarde demais quando percebeu que acabou empurrando a cadeira que estava atrás dele, no escuro. Um ruído que parecia muito maior no silêncio fez-se ouvir por todo o lugar.

Os três homens foram até o lugar onde ele estava. Faustus tirou o facão antigo das costas para evitar que os homens se aproximassem mais. Um deles sacou uma arma e apontou para ele, em sequência os outros dois também. Faustus tremeu e o facão caiu no chão com um ruído, a lâmina quase cortando seu pé.

Um homem continuou erguendo a arma e os outros dois avançaram segurando cada braço de Faustus. Eles o arrastaram de costas, cada um carregando-o por um braço. Um sequestro! Ele passou a argumentar da melhor forma que sabia.

-Eu tenho dinheiro, senhores! Se me deixarem, eu deixo vocês levarem o que quiserem! Eu tenho uma mulher bonita! – Os homens ignoraram-no.

-Olhem o tamanho desta casa! Aposto que tem quartos aqui em que nunca entraram!

-Conhecemos todos. Agora cala a boca. – O homem da frente pegou um rádio no ombro e apertou um botão, houve um chiado e então ele falou. – Sra. Helena, já o capturamos. Alto, camisa azul, calça preta, cabelo grisalho, pele morena, magro até os ossos. – A voz de Helena respondeu “Sim, Grilo, esse mesmo” – Já estamos levando.

-Como é? Helena está lhe pagando pra me sequestrar? Isso é impossível! – Ele se esticou e começou a gritar. – Me soltem, seus filhos da puta! Eu sou o prefeito, eu posso cobrir o que ela está dando para vocês! Me soltem!

Um homem riu.

Faustus ouviu o som de sirenes do lado de fora.

-Agora sim, se foderam. – Ele riu pra ele mesmo.

Eles o arrastaram pelo quintal da casa grande, mas Faustus não ouviu som algum de protesto da polícia. Ela parecia os estar esperando. Ele percebeu o que estava acontecendo.

Um policial algemou Faustus e o colocou na viatura. Fazendo questão de empurrar a cabeça dele enquanto o enfiava no carro. Ele encostou a cabeça na porta do carro e ouviu a conversa.

-Esse ai tava tentando assaltar a casa do prefeito, a mulher dele nos avisou logo e então o prendemos. Ele estava com um facão, mas deixou cair dentro da casa.

-E quanto ao prefeito Faustus? – Inquiriu o policial.

-A mulher disse que ele estava no banho.

-Certo, certo. Vamos deixar a Helena avisar pra ele.

Dentro do carro, Faustus entrou em pânico ao ouvir aquilo. Não era assim que as coisas deveriam acontecer. Nada fazia sentido. Ele olhou para o retrovisor da viatura através da grade do banco detrás e fitou os olhos de um completo estranho, mas ele estava sozinho no automóvel.

Na barraca do Circo Voador, Pérola viu tudo isso e disse:

-Agora, prefeito. O senhor gostaria que eu lesse seu futuro? Posso ver grandes coisas. – Ela pegou em seu pingente.

-Desculpe, senhora, mas acho que eu já sei meu futuro. – Ele abriu um sorriso torto. – Não precisa me acompanhar, eu sei o caminho.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s