Uma canção para um androide

Cyberpunk 2077 - CD Projekt Red

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Ou você é rebelde, ou você é opressor. Não existe meio termo.

Quando os grupos sociais superiores (a iniciativa privada e a política) correm para cima da multidão de revoltosos, é bem provável que muitos saiam correndo e gritando (ou para cima dos opressores, ou para o lado contrário). Porque não importa qual a situação, são os jovens que sempre se levantam e vestem a bandeira de sangue para lutar pelas causas que eles acreditam.

A tropa uniformizada de preto com capacetes com viseiras, e escudos resistentes transparentes avança sem piedade em direção à rua, batendo os cassetetes no escudos, fazendo um som ensurdecedor e um terror psicológico para a multidão de revoltosos do outro lado, que marcha destemida e irritada, com brados guerreiros e olhares de revolução. É noite e o vento frio e taciturno observa atento à orquestra que está prestes a se desenrolar.

Os militares param seu movimento sincronizado e robótico bloqueando a marcha disforme feita pelos revoltosos e prostram os seus escudos bem a frente do corpo, como uma organização romana de proteção, mas com os cassetetes pesados na outra mão, prestes a serem descidos, tendo como alvo a cabeça dos rebeldes. Todos tão ordenados como andróides.

Cacos de vidros quebrados enfeitam o chão, como lembretes do abandono e do descaso social de toda a cidade sem segurança alguma. Resultados de assaltos à lojas, saques à mercados e incontáveis atos de violência e brutalidade da raça humana, que aparentemente esqueceu sua moral e sua ética. Passando a agir como um bando de animais vorazes e virulentos agindo mesmo pela manhã aos olhos de todos, sem medo de serem pegos por leis (pífias piadas em um mundo privatizado).

Do outro lado da rua, uma multidão de homens e mulheres desarmados observa a única ferramenta que o Estado parecia saber exercer, a força bruta para com os que questionavam as escolhas e as atitudes tomadas pelos políticos (marionetes de empresários). Uma vez que o contingente militar servia apenas para bater, sufocar e reprimir qualquer movimento organizado por uma massa muito grande. Praticamente todos os jovens que estão na linha de frente, encabeçando a passeata, exibem seus hematomas como medalhas de quantas brigas tiveram e sobreviveram. Motivos de orgulho para os punks. Em cima de uma van derrubada de lado, uma mulher de cabelo amarelo e vermelho e com pulseiras de espinho encara o outro grupo.

Em uma loja bem no meio do conflito, uma televisão já falhando com o vidro rachado por uma pedra (provavelmente a mesma que quebrou a vidraça), parece não funcionar corretamente, liga e exibe uma mensagem. Um homem cujo o rosto não aparecia, com a voz modificada para ficar anônimo se faz aparecer. O Presidente.

“Povo de nossa nação, boa noite! Que agradável dia temos hoje. Nossa economia se mostra mais estável do que nunca, os índices de assalto estão praticamente nulos, as taxas de mortalidade infantil são as menores da história! Tudo funciona perfeitamente em ordem. Basta acreditarem em mim, como sempre fizeram. No entanto, venho pedir-lhes uma coisa nesta noite tão especial de Independência.”

O contingente de androides avança avassaladoramente sobre a rua em direção aos punks.

“Parece que foi ontem, quando uma criança veio me perguntar o porquê de existirem pessoas más. E eu lhe respondi: ‘Ora, é porque não são todos que se adequam ao padrão’. E ela me perguntou o que era uma padrão. E lhe respondi: ‘É como uma música, criança, se existir qualquer empecilho, ele lhe incomoda e você tem que reformular toda a música para acabar com aquele pedacinho inútil.”

Um militar desce o cassetete sobre a cabeça de um rapaz de moicano colorido e jaqueta jeans rasgada que avançou junto com toda a multidão e encarou o órgão repressor.

“Esta noite, parece que algumas pessoas más estão querendo quebrar esta harmonia em que vivemos, elas não se adequam à melodia de nossa vida perfeita aqui. Eu peço para que não se juntem a esta multidão de criminosos. Eles não são os que lutam pela causa da paz que já atingimos.”

Em cima de um apartamento de dois andares, surge um jovem de não mais de vinte anos, com uma guitarra nas costas e um grande amplificador de som. Não tarda até que outros também apareçam em cima de casas e prédios também.

“Não troquem o conforto de seus lares pelo desconforto de uma passeata ridícula e sem propósito. Lembrem-se, nós somos as pessoas que lhe ajudam. Não há razão para questionar.”

O rapaz liga seu aparelho que faz um som estridente e puxa sua guitarra elétrica para começar seu ensaio. Na rua, um punk com um sapato vermelho chuta o peito de um militar e urra por sua causa. Um andróide chuta o estômago de uma mulher caída no chão e um menino bate com um bastão na cabeça de um homem de preto.

“Não há para que exista um ruído nesta nossa perfeita canção!” Ele ri para todas as casas vazias onde havia uma televisão ligada “Feliz dia da Independência e boa noite.”

Enquanto o Presidente termina sua declaração. Na rua, não haviam ruídos, mas um hino que sobrepujava a música corrupta.


Conto inspirado no cenário Cyberpunk muito utilizado em obras como Blade Runner, Ghost in the Shell e o RPG Cyberpunk 2020 entre outros. Apesar da estética não ser tão parecida com a geralmente utilizada nestes cenários, o conceito foi o que eu tentei reaproveitar.

***Imagem retirada do trailer do jogo Cyberpunk 2077 da CD Projekt Red 

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