A cor do Antigo

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Um diminuto robô corria com suas pernas retas até o local onde havia um corpo estendido no chão. Durante o percurso, ele gritava com uma voz aguda “Emergência! Emergência!” e luzinhas piscavam em sua cabeça e seu peito.

Os carros voadores cruzavam as ruas altas e ocupavam o escuro céu da manhã. Ignorando o corpo jogado ao acaso.

Desde que o Sol apagara, muitas pessoas morriam por não aguentar as luzes artificiais do esquife construído ao redor do planeta.

Emergência! Emergência!” gritava quando chegou ao defunto branco.

O homem estava ao lado de uma poça azul-sangue, como se ele tivesse vomitado tudo aquilo, mas com um olhar mais atento, muito sangue escorrera pelo nariz e pelos olhos, também. Julgando pela cor do sangue, era uma classe baixa.

Os mais altos e ricos possuíam o sangue esmeralda, os medíocres o vermelho e aos pobres restava o azul.

O robô abriu seu peito e tirou uma cápsula da direita e posicionou na esquerda do tórax. Um rápido estalido aconteceu quando a ligação foi feita, e logo depois o robô cresceu avassaladoramente, saindo de seus mínimos centímetros aos 3 metros de altura.

EMERGÊNCIA! EMERGÊNCIA! ” Dizia agora uma voz lenta e pesada, alta o suficiente para cobrir o som irritante das buzinas, dos motores e do tráfego dos carros transeuntes.

O robô levantou o corpo para uma rede de atendimento emergencial, para serem detectados a causa da morte e possíveis culpados.

Todavia, se houvessem agentes responsáveis pela morte do homem, estes nunca veriam a cor da prisão, uma vez que geralmente eram sangues-verde, que costumavam ir aos níveis 3 e 4 da cidade para matar sangues-azul.

A tecnologia já conseguia identificar, em pouquíssimo tempo, a forma como as pessoas morreram e os culpados em praticamente todos os casos.

O corpo foi jogado em uma maca e empurrado para dentro da máquina-caixão. A engenhoca rangeu e passou uma bateria de luzes no corpo, logo depois subiu um líquido, submergindo o morto.

Um médico foi até o monitor para olhar o laudo que a máquina deveria produzir.Deveria. No lugar das informações que deveriam aparecer na tela, piscava uma mensagem com um fundo azul “DADOS INSUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA” e logo depois o fundo mudava ao vermelho, ao verde, ao amarelo, e depois de volta ao azul. Então começava os testes no corpo, tudo de novo.

A máquina não fora projetada para falhar nem suportar erros.

Por três longos dias o processo foi repetido e por três longos dias a mesma mensagem foi repetida. Até um corpo nas mesmas condições ser encontrado, um sangue-verde.

A pressão das indústrias foi gigantesca, forçando o governo a encontrar um culpado. No mesmo dia, com os testes feitos com o outro corpo, a mesma mensagem: “DADOS INSUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA“. Para fugir das investidas privadas, o Chanceler da América ordenou a prisão de todos os sangue-azul.

Mesmo assim, ainda restava a dúvida de que a máquina seria o problema, mas em diversos lugares no mundo, várias pessoas morriam e várias máquinas davam o mesmo laudo.

Em poucos meses, o caos se instalara no mundo inteiro. E a ilusão de que tudo estava bem, havia se desmanchado no oceano negro, várias camadas abaixo das cidades aéreas.

No Oceano Américo-Europeu, tsunamis começaram a ser gerados e terremotos passaram a assolar todo o planeta.

Teóricos da conspiração diziam que o Sol acendera-se novamente, que o eixo da Terra havia virado novamente. Os mais insanos, que ainda acreditavam em deuses, falavam ser um castigo divino ou vingança sobrenatural.

Mas todos pararam quando todo o planeta junto com seu domo e o centro do Oceano Américo-Europeu tremeram. O próprio Primeiro-Ministro do Polo Norte mandou planadores para a região, para observarem o que ocorria.

Com seus aero-monitores em cada lugar dentro da carapaça da Terra, ele podia ver o que se passava.

Se ainda fosse permitido ir às praias ou ver o real solo do planeta, seria notado o aumento do volume da água e as ondas que se erguiam.

E o que se erguia também.

Um colosso emergia do Oceano. Tão grande que o planador parecia uma mosca para seus olhos.

Muitos ficaram loucos no momento em que viram o Antigo, dada a conexão mental.

Não seria possível descrever o ser, já que palavras humanas não podem expressar suas formas, tal como a boca dos homens nunca poderiam pronunciar seu nome ou emitir o som do Antigo de R’yleh. Os ouvidos dos terrestres não compreendem uma fração do idioma original.

A única coisa que poderia ser descrita seria sua cor, se esta fosse conhecida pelos homens, mas não era.

As luzes do tomo explodiram ante a presença do colosso.

O tomo rachou pronto para entregar o planeta ao universo. Porém, quando a primeira fenda mostrou as estrelas, membros sangraram para dentro da estrutura.

O dia em que a raça humana foi escravizada por pura vontade, foi o dia em que os Antigos reclamaram sua posse.

Todavia, minúsculas pragas haviam destruído sua propriedade, no período em que ficara adormecido. Segundos para os Antigos, eras para os homens.

Em instantes, a insanidade instaurou-se.

 


Conto inspirado nas obras de H.P. Lovecraft que conta de outra forma o despertar do grande Chtullu.
PS: Quem consegue pegar o easter-egg do Asimov?

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