O dia da caça

Imagem por mattsparling.com

*

Já era escuro quando o caçador chegou até sua “nova área de caça”. Ficava cerca de uma hora mais distante que a outra, mas desde que passaram a monitorar o antigo local, ele achou melhor trocar de região.

A mata verde e alta, que deveria ser verde e alegre pela manhã, agora parecia uma muralha feita de sombra sólida. A luz da gigantesca lua banhava a copa das árvores, mas, de tão altas que eram, mal era possível vê-las.

O Caçador desligou seu celular, para que nada o interrompesse em sua tarefa favorita, nem som algum afugentasse os animais, e voltou a enfiá-lo no bolso. Apertou a arma nos dedos, respirou fundo e semicerrou os olhos, para melhor enxergar qualquer movimento dentro da mata. Finalmente adentrou o véu escuro.

Avançou por alguns metros, sem preocupar-se com qualquer animal ao redor, apenas apurando os sentidos, aguçando a visão, a audição e o olfato. O processo era quase ritualístico, e o homem já sabia como ele funcionava, estava acostumado, então, em poucos instantes, já pensava como um animal selvagem. Era um animal selvagem.

Contudo, antes de ir à caça efetiva, ele precisava de um porto seguro para se resguardar e descansar ao fim da noite. Era como ele fazia, caçava até o amanhecer e depois ia descansar e dormir na cabana, acordava na hora do almoço, quando a barriga já rugia como um bicho. Em algum lugar, deveria haver uma clareira para ele montar sua barraca.

Foram cerca de vinte minutos de caminhada, até ele encontrar um lugar para se estabelecer.

Ele tirou a mochila do bolso e puxou a lona de dentro, depois os arranjos para mantê-la firma e, em alguns minutos, sua barraca estava pronta. Preparou seus mantimentos lá dentro, onde tinha certeza de que estariam seguros e não poderiam atrasá-lo. Perfeitos para que, quando voltasse, descansasse antes de voltar à cidade e fazer algum dinheiro.

Saiu da clareira tomando cuidado para lembrar-se de cada passo que dava, afim de não precisar demorar buscando o caminho de volta para a clareira. O difícil era prestar atenção aonde ia, em tudo a sua volta e em qualquer ser que valesse à pena ou apresentasse algum tipo de perigo.

Começou a reparar nos sons a sua volta, nos sussurros do vento em seus ouvidos, no melancólico som uma ou outra coruja solitária, ou até mesmo no som que os galhos faziam quando eram movidos e nos arbustos quando eram mexidos. O pontiagudo abraço do frio já envolvia suas orelhas desprotegidas.

O céu azul-escuro quase não aparecia entre as folhas, deixando poucas pistas que a luminosidade poderia existir lá em cima. Os poucos raios refletidos pela lua trocavam carícias com o chão arenoso e as plantas tímidas que ainda cresciam.

Algo se moveu quando o caçador quebrou um galho caído. Provavelmente um gato do mato, um coelho ou pássaro assustado. Não havia problema, de certo outros maiores e mais bonitos apareceriam em poucas horas.

Mas estes não o fizeram. O Caçador podia jurar que o local novo que escolhera era livre de animais, ou que o ser que correu foi logo avisar a todos que havia um caçador por ali.

Já estava quase amanhecendo quando o sono reclamava a posse do corpo do homem, de tal forma que os sentidos já brincavam com os sentidos já brincavam com os sentidos já brincavam com…

O Caçador balançou a cabeça para manter-se focado, mas não adiantou muito, os olhos ameaçavam tombar, os ouvidos criavam risadas e canções e o cheiro da floresta já se confundia com o de incensos.

Fazia tempo que não partia em uma empreitada sem sucesso. A culpa disso ele atribuiu ao dia exaustivo. Já pensava se seria melhor voltar para sua cabana e dormir logo, amanhã ele daria um jeito de sobreviver. Deixa isso de lado, já estava com sono e cansado, com certeza dá para arrumar isso depois.

Deu meia volta e partiu na trilha que se lembrava, perdendo um pouco o caminho, mas logo recuperando o rastro de seus pés descalços que seguiam para sua barraca na clareira.

Ao chegar lá viu a fogueira que acendeu antes de montar a barraca. Ou foi depois? E daí, quem liga?

Abriu o zíper da cabana e adentrou. As sombras brincavam de dançar lá dentro. Jogou a arma para um lado, fechou o zíper e tirou as galochas. Fechou-se no saco de dormir e adormeceu ao som das risadas e do incenso que lhe tomavam os sentidos.

Era mais de meio dia quando acordou. Do lado de fora da barraca havia as toras de carvão de uma fogueira. Mas ele não acendera nenhuma, não lembrava pelo menos. Ele arrumou tudo e pôs dentro da bolsa, checando se não esquecera nada. Tudo estava em ordem.

Agora teria que voltar para casa com as mãos vazias.

Entrou no carro e puxou o celular do bolso, pela primeira vez desde que chegara até aquele maldito lugar. Estava no álbum de fotos.

E lá estava uma imagem que o Caçador nunca se esqueceria.

Ele deitado, dormindo inconsciente de tudo a sua volta, com sangue ao seu lado. A foto foi tirada de um ângulo de cima, mas ele fora sozinho até lá.


 *Imagem por Matt Sparling

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