Jantando com um assassino de crianças

A família de Bertinho morava em uma casa afastada da cidade grande, no entanto, perto o suficiente para que das janelas da casa, do lado direito (se visto da parte de fora) e esquerdo (se visto da parte de dentro), fosse possível vislumbrar os grandes prédios no centro da zona urbana. Quanto mais para o meio, maiores eram as construções, pareciam feitos para aprisionar as pessoas, atraindo elas com tecnologia e prazeres, assim como o a luz atrai os mosquitos.

Uma figura se destacava do mundo verde ao redor da casa, uma imagem com um terno preto, sapatos bem arrumados, cabelos grisalhos e jogados para trás e um par de óculos absurdamente quadrado. Era um homem, subindo a colina, solitário e silenciosamente.

Agora… Cadê a campainha? Foi o cachorro quem o delatou, latindo alto e esganiçado, era de uma raça que ele não conhecia, ou nunca se lembrou de ter visto algo parecido. Era magro, as patas viradas para dentro, o focinho longo e para cima e, ainda por cima, vesgo.

Pouco tempo depois do latido houve um barulho na casa e a porta foi aberta e do outro lado aparecia uma mulher baixinha e não de todo desagradável. Estava com um avental branco e um vestido azul. Um sorriso tímido tomou conta do rosto dela.

– Querido! – Gritou a mulher – Desce aqui! O homem do colégio chegou! – A voz dela falhou na última palavra.

Ela estava chorando antes de eu chegar. Será que ela já descobriu que fui eu quem fez isso? Mas tenho que terminar esse serviço… Ele voltou a realidade quando viu a mão estendida a frente dele, o homem estava falando. Há quanto tempo ele está falando? Ele apertou a mão, muito maior que a dele e que pertencia a um homem proporcionalmente grande.

– O senhor pode entrar, quer jantar?

Esse grandão pode ser um problema… Como vou dar um jeito nele? Mas o que ele disse foi:

– Adoraria se não for de muito incomodo. – Depois de uma longa explicação sobre as fotos de família, eles se sentaram.

E a mesa era a mais bem disposta que pessoas do interior conseguiam fazer, era pequena, a mesa, com seis lugares e um vaso de flores, colhidas de forma pré-matura, estava morrendo no meio.

-… E o melhor jeito de quebrar o pescoço da galinha é…

-Querido, o moço do colégio é entendido do assunto, ele já sabe dessas coisa tudo. Desculpa o marido, seu moço, ele adora falar sobre as galinhas dele.

– E você, gosta de galinhas?

– Desculpe. – Ele falou sem jeito. – Eu não mato galinhas. – Houve um momento de risada, mas ela cessou logo depois.

O homem pôs as mãos no rosto e o limpou em seco e depois respirou fundo. E depois ficou calado com os olhos fitando o nada.

A mulher pôs as mãos nas costas do marido e com a cabeça baixa quebrou o silêncio fúnebre.

– Seu moço, desculpa, é que a gente se sente culpado rindo, pelo que aconteceu esses “diasmentes”. – Ele não ousou corrigir a mulher, mas falou de forma fria.

– Me desculpem, mas eu senti a necessidade de vir aqui por isso, me desculpar.

– Com quantas crianças aconteceu essa malvadeza? – O homem tinha lágrimas nos olhos e tentava conter o máximo que podia, mas não estava tendo sucesso, era culpa da saudade precoce. Perdera o filho.

– Sete. – A frieza na voz do homem era aparente.

– O Robertinho, ele nunca… Nunca mais vai poder brincar com os amiguinhos. – O inevitável aconteceu, a mulher começou a chorar e o homem tentava conforta-la.

-Desculpem, mas… – Ele pegou a faca na mão, não era longa, mas era, de fato, muito afiada. – Se depender de mim, serão mais, e talvez até adultos. – E virou os olhos da mãe, para o pai. Qual vai ser o primeiro? Talvez eu devesse…

– Como assim? Você não se sente mal pelas crianças? Elas são da sua escola. – A mescla de raiva e tristeza estava dando lugar ao ódio, é sempre assim depois de uma situação difícil.

– Nem um pouco. – Ele levantou a faca e cortou um pedaço da carne com uma facilidade absurda. – Minha senhora, pense assim – Ele tirou os óculos. – Ele está em um lugar melhor, deveriam me agradecer.

– Marido, chame a policia. Eu não quero esse moço na minha casa!

– Não será preciso, vocês não terão tempo para isso, eu creio.

Ouviram passos na escada e então escutaram uma porta se fechando.

– Aí está. – Ele limpou a boca e se levantou, ainda com a faca na mão. – Meu assistente.

O casal começou a chorar desesperadamente.

– Roberto, meu bom rapaz! Vamos?

Um jovem também de terno e com posse de uma maleta o acompanhou até a porta e quando estavam prestes a sair, o homem retornou.

-Acho que isso é de vocês. – E pôs a faca delicadamente na mesa, depois saiu, deixando o casal que chorava.

Após certo tempo, a mulher pegou a faca.

-Meu amor, isso na ponta é… Sangue?


Antes que reclamem das palavras escritas erradas e dos neologismos nos diálogos: Essa realmente foi minha intenção! Eu quis deixar as pessoas bem caricatas, demonstrando que elas não tem um nível de instrução muito alto e elas  se sentem incomodadas com a situação em que estão.

O filho, Roberto, é o garoto que perdeu a infância para o trabalho, mas ao invés de utilizar o homem do campo que precisa trabalhar bastante desde pequeno, eu inverti o quadro. Nesse caso é o mundo formal e empresarial que “mata” a criança dentro dos jovens, forçando eles a serem frios tendo, cada vez mais, que parar com suas atitudes emocionais para serem “bem-sucedidos”.

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