As fotos do Circo Voador [1/8]

         -Você é um jornalista, não um investigador, Alex, que droga! – Dizia o chefe de Alexandre Ícaro D’la Vista, com um cigarro entre os dedos cuspindo saliva e fumaça durante os berros. – Então pega essa porra de câmera e essa porra de caneta e vai cobrir e tirar fotos do circo-que-voa ou seja lá qual for o nome!

            Alex pensou em responder aos gritos do chefe, mas não valeria o risco. De um lado da balança estaria seu orgulho e do outro sua fonte de renda. Optou pela segunda opção e catou a câmera na mesa que estava à sua frente no escritório do jornal, colocou as alças ao redor do pescoço, se virou de costas e saiu fazendo questão de bater a merda da porta.

            O Circo Voador chegara à cidade no início da madrugada e, pela manhã, já estava montado, sem nenhum aviso prévio, simplesmente apareceu. A questão é que Alex lera jornais de outras cidades e em alguns deles, o circo em questão era mencionado. A única diferença entre ele e a maioria das pessoas, era que D’la Vista percebera alguns casos de desaparecimento nas cidades onde a atração passava. Crianças (adolescentes em alguns casos). Claro, pessoas são dadas desaparecidas o tempo inteiro, mas Alex acreditava que havia uma ligação direta entre a presença do Circo e o sumiço dos jovens.

            Essa cisma o fez entrar em uma discussão com o chefe, onde ele pedira o máximo de informações ao seu superior, dizendo que seria uma notícia de capa “Circo Intinerante que sequestrava crianças por onde passava é desmascarado” ou algum outro título menor. Mas, aparentemente, seu chefe não concordava com as ligações que Alex havia feito e o mandou parar com a ideia absurda de que uma trupe circense viajava pelo país sequestrando pirralhos. “E o que fazem com eles se ninguém viu os corpos? Se sequestraram tantos, alguém teria notado” Foi o que lhe disse, a réplica de Alex foi “Eu notei!” e então o fumante explodiu mandando o jornalista ir cobrir a presença da atração.

            Enquanto passava do escritório do chefe até a escada do andar, para descer até o térreo e sair para tomar um café, Maurício Okawa, seu amigo mais próximo no trabalho (e na vida) parou na sua frente e segurou o peito de Alex.

            -Cara, você foi falar pro velho Jonas da sua conspiração do Circo? – Não era uma pergunta.

            -Maurício, eu tenho certeza de que tem alguma coisa por trás desses caras. Você não percebe? Por todas as cidades por onde eles passaram – Alex fez um gesto com o braço – sumiram pessoas, não pode ser coincidência.

            O amigo de descendência japonesa se aproximou.

            -Se você pegar o nosso jornal de ontem vai ver uma seção com o título “Você me viu?” na página 23, com um monte de fotos de pessoas que sumiram. E eu vou te contar uma coisa, o Circo Voador não estava nem aqui na cidade quando sumiram pessoas dez anos atrás!

            -É diferente! – Alex falou alto para cobrir a voz de Maurício.

            -Diferente como?

            -Só… Diferente, não sei como te dizer!

            Os dois perceberam que estavam aumentando o tom de voz e que algumas pessoas de outros cubículos já estavam olhando para eles. Maurício se aproximou do amigo e voltou a falar em um tom mais baixo.

            -Escuta, Alex. Tem muita gente que gosta de você aqui no jornal, mas se você não conseguir cobrir uma matéria simples como essa, vai ser difícil te levarem a sério depois. Eu trabalho aqui já faz mais tempo que você…

            -Dois anos.

            -Já é mais tempo! – Maurício fez uma pausa para Alex saber que não deveria interromper de novo. – E o que eu aprendi é que você, em situações como essa, só deve tirar algumas fotos e escrever algumas bobagens para que as pessoas se arrependam de não terem ido ao Circo quando tiveram a oportunidade. Fotos e frases curtas. Entendeu?

            -Entendi. – Respondeu olhando para a camisa e os suspensórios do amigo, que era mais baixo que ele.

            -Bom. Alex, eu sou teu amigo, não se sinta mal. Além do mais, vão surgir outras oportunidades, não seja cabeça dura. Enfim, eu tenho que voltar pra minha mesa, faça um bom trabalho e lembre-se…

            -Fotos e frases curtas. – Disseram em uníssono.

            -Isso mesmo!

            Alex Ícaro D’la Vista continuou seu percurso até a escada, abriu a porta com uma janela de vidro fosco e desceu até o térreo e saiu do prédio para pegar seu copo de café.

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