As fotos do Circo Voador [5/8]

A primeira ideia que Alex teve quando entrou na nave, foi que ela era, na verdade, um labirinto monstruoso. Ele não fazia ideia de onde estava. E tinha medo de que se fosse muito adiante, não iria encontrar a saída nunca mais.

Alexandre andou vários metros em vários corredores que pareciam o mesmo para ele, vez ou outra ele via alguma cabine minúscula aberta e espiava para dentro com o coração na mão, esperando que pulasse um palhaço maldito ou um homem musculoso para pegá-lo.

Em uma das cabines, ele olhou um homem grande deitado sobre uma mesa ou escrivaninha, ele não soube se estava acordado ou não.

Em outra, ele viu um homem dormindo em uma minúscula cama espremida dentro do cubículo. E as cabines trancadas se seguiram por vários minutos, até o primeiro indício de som chegou até os ouvidos de Alex, mas ele ainda não compreendia o que escutava.

As palavras vinham difusas e ele escutava coisas como “cansado” ou “fome”, teve certeza de que alguém estava escolhendo o que comer. Alexandre se deixou guiar por esses sons e foi andando curvado fazendo o mínimo de barulho possível para as tábuas do chão não gritarem com seu peso. Ele apoiou as mãos nas paredes enquanto andava e quando estava chegando na esquina do corredor, percebeu que estava bem próximo da fonte dos sons.

Ele não se atreveu à dobrar a esquina ou meter a cabeça para observar. Pela iluminação diferente e os sons não chegarem abafados até ele, Alex deduziu que naquela dobra seria uma espécie de salão. Alex verificou se a porta mais próxima dele estava trancada e agradeceu ao infeliz que a deixou aberta, quando ela cedeu para dentro e caso ele quisesse abrir apenas um pouco, poderia ver quem passava pelo corredor. Ele colocou a cabeça para dentro e observou uma espécie de armário com espaço o suficiente para ele se esconder dentro, caso alguém fosse passar.

O armário guardava em algumas prateleiras alguns papéis com cartazes, de outros shows provavelmente, já que Alex podia ler pedaços desconexos de anúncios como “do monstro leonin” ou “diretamente dos templos nórd”. Em outra estante estavam toras de madeira que poderiam ser usadas para construir alguma coisa, ao seu lado estava um martelo pequeno e um machado. Com tudo isso em mente, Alexandre deduziu que aquele era o lugar onde ficava o estoque de materiais para a confecção da publicidade do Circo Voador.

O jornalista fechou a porta e a trancou com uma tora de madeira cruzando o a parede em que o acesso estava para que ninguém lhe descobrisse. Foi até um canto da sala em que ele podia encostar a cabeça e se espremeu contra um pedaço da parede que estava livre na esperança de escutar alguma parte do diálogo do outro lado. Para sua surpresa, ele conseguiu ouvir uma voz feminina.

“…lista me entrevistou para alguma reportagem no jornal, estava tirando algumas fotos também. Era até bonitinho.”

“Eu acho que sei quem é.” Veio a voz do mágico. Naquele instante, o peito de Alex foi alfinetado. Se eles entrassem em detalhes, provavelmente ele levantaria suspeitas. “Devo me preocupar com algum tripulante a bordo esta noite?” Alexandre sentiu os cabelos da nuca se eriçarem.

“Claro que não, papai!” Alex sentiu na voz dela mais brincadeira que raiva. O que o fez perguntar quantos homens ela levara na sua cabine nas viagens do Circo.

Provavelmente Foz disse alguma coisa mais baixo, que Alexandre estava se esforçando para ouvir quando ouviu um som estranho.

Tum. Tum. Tum.

Então mais forte.

Tum. Tum. Tum.

Alguém estava na porta.

Alex ouviu esse alguém tentando usar a maçaneta e começou a hiperventilar. As pupilas dilataram, o peito se inflou, o sangue começou a circular mais depressa. Ele se afastou da parede lentamente. Sentiu o suor escorrendo nas axilas, no colarinho e na testa. A câmera começou a pesar no pescoço e ele percebeu que ainda estava com ela. Não importa.

Enquanto o Tum. Tum. Tum. Continuava, ele levantou uma mão até a estante e sentiu o cabo do martelo. Fechou os dedos e segurou a arma em posição de defesa, se preparando para o combate e fuga iminente.

-Lance! Tu trancou o armário de novo?! Gritaram do outro lado da porta. Puta que pariu, Lance!

Alex começou a ouvir o homem resmungar palavrões para o infeliz Lance, que aparentemente trancava o armário com uma certa frequência.

Levantou o martelo com as duas mãos ao lado da cabeça.

Ele ouviu passos e em seguida outra voz.

-Deixa isso no quartinho do Mo, ele não vai se importar. Depois volte e continue a desarrumar o Circo. Era a voz de Foz. Não quero desculpas para a demora!

-Sim, senhor.

Alex não soube quanto tempo ficou estático depois disso. Ou quanto tempo demorou até recuperar o controle do seu corpo.

Ele colocou o martelo de volta à estante onde estava. E se encolheu de volta ao canto da parede.

 

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