As fotos do Circo Voador [6/8]

O objetivo de Alexandre era entrar ali e provar para ele mesmo que havia (ou não), algo de errado com o tal do Circo. E a adrenalina o fez seguir em sua empreitada e em sua invasão à nave, mas depois do susto e da sensação de pânico, outros pensamentos tenebrosos passaram a atacar sua mente. Ele estava sozinho em um quarto escuro apenas com suas reflexões e isso é a melhor forma de se sentir mal.

E se por algum motivo o Circo simplesmente saísse voando e ele tivesse como descer? E se o encontrassem? Alex achava muito improvável que eles fossem parar, dar meia-volta e lhe deixar novamente no lugar de onde saíra. Talvez Liz o convidasse para sua cabine. Mas esse pensamento foi descartado, apesar de tentador.

E se realmente houvesse alguém vil na trupe? Alguém que não soubesse que Alexandre Ícaro D’la Vista era um cara legal que dera uma flor para Liz? O que ele iria dizer se o encontrassem? “Me desculpem, eu estava procurando crianças sequestradas, vocês viram alguma?” ou “Eu queria tirar umas fotos daqui de dentro para colocar no jornal.

E o que eles diriam quando o encontrarem? Talvez algo como: “Ora, ora, ora, eu sabia que esse jornalistazinho metido a besta estava bisbilhotando a gente.” Ou quem sabe: “Você pode tentar pular, se sobreviver, estará livre”. Mas nada de: “Vamos para minha cabine, Ícaro.

Alexandre se pegou pensando qual seria a reação das pessoas se ele sumisse. Se Maurício iria chorar, se seus pais iriam voltar a conversar para se consolarem, se o velho Jonas iriam deixar alguma coisa entrar em seu coração de gelo, até mesmo se a atendente do café perto do jornal iria notar sua falta.

Ele ouviu algumas palavras, mas estava ignorando a maioria, até ouvir cadeiras sendo arrastadas. Madeira sobre madeira. Alex voltou a ficar atento à conversa, tentando afastar esses fantasmas em que pensava.

Não escutou se houve despedida, mas talvez o som de um arroto abafado, provavelmente do gordo mágico, foi perceptível. O jornalista se esforçou para ficar muito atento aos mínimos sons e percebeu passos do sapato de couro com sola pesada, para fazer Foz parecer mais alto, atravessando o cômodo ao lado. Os passos continuaram e Alex foi até a porta e colocou o ouvido contra a madeira. Sim, o homem estava saindo e cruzando o corredor. Mas quanto tempo demoraria até ele não ser mais visível quando saísse do seu esconderijo?

Alex esperou alguns minutos, que pareceram alguns dias em sua cabeça, e tirou a trava para abrir um pouco a porta. Não havia ninguém em seu campo de visão do corredor em que estava o armário, ou no da frente. Ele sabia que se não reunisse coragem agora, não sairia dali nunca mais.

Sem se virar, ele estendeu o braço para a prateleira onde ele lembrava de ter colocado o martelo e agarrou o cabo que sentiu com a mão esquerda. Colocou a cabeça para fora e olhou para os dois lados e depois saiu o corpo todo. Ele foi para o lado contrário ao que o mágico saiu e encontrou uma sala gigantesca.

A sala tinha o chão inteiro de madeira e uma mesa enorme coberta com um pano branco fazia questão de ocupar o meio do ambiente. Os quatro cantos das paredes possuíam vigas com pedaços de metal para reforço e havia um lustre no teto. Várias cadeiras ocupavam as laterais da grande mesa, mas só havia uma cadeira em uma das extremidades, que Alex deduziu ser a de Foz.

O pensamento do quão incongruente aquela sala de jantar era só não o chocou mais, porque ele já havia aceitado que, de alguma forma, o tamanho da embarcação era muito maior do que ele podia imaginar.

Alexandre andou até a mesa. Não havia comida servida, alguém poderia ter retirado ela. Ele andou alguns metros e viu uma escada para um andar superior bem no fim do cômodo, no lado oposto à entrada. Também havia uma outra porta à esquerda, mas Alex preferiu seguir para o andar de cima, voltaria.

No meio do lance de escadas, Alex começou a ouvir o som do ar correndo por algumas janelas talvez. Ele apertou o cabo mais forte em sua mão. O andar de cima da nave era mais iluminado, ele olhou para o corredor por cima da amurada da escada e ia terminar de subir quando uma porta se abriu.

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