As fotos do Circo Voador [8/8]

O primeiro impulso de Alexandre foi correr para a escada, onde ele esperava não haver ninguém. E em disparada os dois homens correram atrás dele gritando obscenidades e ameaças como “É melhorar parar antes que a gente quebre suas pernas!” ou “Volta aqui seu magrelo!”.

Alex subiu as escadas e correu pelo corredor sem perceber as portas fechadas ou abertas que o ladeavam. O som dos passos pesados do homem grande o seguiam e os gritos do asiático chegavam aos seus ouvidos.

Merda! Puta que pariu!

No fim desse corredor havia uma escada grande em um ângulo quase reto. Alexandre subiu nela com um fôlego que ele não sabia de onde havia tirado. Talvez da vontade de fugir e as substâncias liberadas pelos hormônios.

Quando ele ia chegando no final, percebeu que podia observar o céu noturno e a lua. Tomou um novo impulso e chegou até a parte de fora do Circo Voador, foi até a amurada com a intenção de pular e ficar livre das garras dos seus perseguidores que, em breve, iriam chamar o resto de seus companheiros.

Quando ele apoiou os braços na mureta, ele parou. Estava alto demais. Muito mais do que ele esperava. Lá de cima, ele podia ver quase tudo terminando de ser desmontado nas barracas em baixo. Devia ser quase meia noite, talvez mais. Quanto tempo ele ficou no quartinho? Não saberia dizer de forma alguma.

Os homens estavam subindo as escadas.

Ele olhou ao redor. As hélices que faziam o Circo voar estavam ali, quatro delas e algumas lonas estendidas no chão, mais próximas dele. Alex não fazia ideia do porquê daquelas lonas. Mas elas estavam em um local separado, como se para que as hélices não as rasgassem.

O homem magrelo chegou até o topo da escada e em seguida a pilha de músculos.

-Você! Larga logo as minhas coisas! E nem tente fazer nada, espertinho! – Ele apontava para a faca.

-O que vocês fizeram com as crianças? – Alex gritou aquilo com o rosto vermelho.

O asiático deu um sorriso amarelo.

-As que a gente comeu ou as que a gente comprou? – Ele riu com os olhinhos fechados.

Alexandre se moveu lentamente até onde haviam as lonas.

O homem grande começou a andar na direção dele. E Alex viu que outras pessoas subiam pela escada e chegavam até o lugar. Ele não tinha chance. O grupo circense começou a encurralá-lo.

-Com licença! – Uma voz veio do meio das pessoas. E todas deixaram o mágico Foz passar. – Ora, ora, ora. Se não é o jornalista D’la Vista. O que está fazendo aqui?

-Eu percebi que as pessoas sumiam por onde vocês passavam. – Alex estendia a faca à frente do corpo, em ameaça. – Mas se quiser, pode ficar com a foto! – Ele tirou do bolso detrás da calça a foto dobrada das crianças nas correntes. – Se me deixar ir embora. Por favor! – Ele chorava.

-Me dê a câmera também.

Alex tirou a faixa que prendia a câmera ao seu pescoço e jogou para Foz que conseguiu pegá-la no ar.

-Vocês não vão sair daqui. – Ele levantou o machado com a outra mão e enfiou na lona. – Não se eu sabotar isso!

-Não seja estúpido, garoto, não usamos isso aí faz tempo, temos hélices agora. Pode cortar esses balões o quanto quiser. – Disse Foz, mas Alex sentiu um pouco de segurança forçada em sua voz.

Alex continuou a meter o machado e rasgar as lonas dos balões. Quando a tripulação começou a se aproximar. Ele começou a dar passos para trás e notou que já estava na amurada à vários metros do chão, se caísse, na melhor das hipóteses, quebraria todos os ossos.

Ele fez uma estocada com a faca, mas ninguém se intimidou com a atitude. Alexandre soltou o machado. Ele não iria voltar para salvar as crianças. Não iria ver a garota do café, não iria falar com Maurício, ou com os pais.

A tripulação estava a alguns poucos metros dele, quando Alex soltou a faca no chão e subiu na amurada, pronto para pular.

Sentiu o vento o empurrando e o cabelo bagunçado. Saltou.

Mas a queda não durou muito, duas mãos direitas pegaram seu braço. Não! E depois duas mãos esquerdas. Começaram a puxá-lo de volta. À sua frente estava o homem do show de horrores, com os quatro antebraços. Ao seu lado, Foz o observava.

-Olha, Sr. D’la Vista, eu sabia que você era enxerido. Mas sabe o que vamos fazer? Nós vamos te deixar cair e depois vamos embora. E todo mundo vai continuar com suas vidinhas normais, ignorando qualquer loucura que você disser.

-Vocês vão pro inferno. – Alex disse aquilo, mas eram mais palavras de conforto para ele mesmo, que uma ameaça. Os olhos dele já estavam vermelhos.

Foz sorriu para o rapaz e pegou a câmera. O Hecatônquiro moderno soltou o braço de Alex e o deixou cair. Foz tirou uma foto.

Ele abanou o papel para revelar a imagem mais rápido e depois falou alto.

-Alguém tem uma caneta? – Um palhaço lhe entregou uma de prontidão. – Obrigado.

Ele anotou na parte debaixo da foto sua legenda e a entregou para Liz que estava no meio das pessoas que observavam a cena.

-Não deixa de ser irônico, não? – Disse Foz e depois saiu. Em pouco tempo, as pessoas já estavam se dissipando.

Liz olhou a legenda da foto que dizia: A queda de Ícaro.

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