Contos

A Brevidade de todos nós

PaleBlueDot

O que vai acontecer quando as grandes naves espaciais desbravarem o espaço, levando dentro delas várias pessoas pelo éter e pelo céu?

Quando uma frota espacial alcançar as luas e outros planetas com o intuito de descobrir, de pesquisar e de aprender sobre tudo o que nos cerca, vendo as majestosas estrelas de perto, as supernovas praticamente a olho nu. Quando o brilho do Sol não definir apenas dia e noite e sim o quão perto estaremos de uma galáxia.

Quando uma delegação de exploradores, em seus trajes espaciais descerem em um novo planeta e olharem tudo o que está ao redor. Quando descobrirem novas espécies tão fantásticas que habitam os recantos do cosmos, em seus planetas submarinos, desérticos, verdes ou até escuros. O que vai acontecer quando nós formos antigos e sábios o bastante para sermos um porto seguro para outras espécies inteligentes como nós?

Quando as escolhas tomadas não privilegiem apenas o terráqueo ou o extraterrestre e sim toda a magnificência da vida que se alastrou por todo o universo. Quando nossa Lua for uma colônia aliada e nós pudermos viver fora do planeta, em harmonia.

Quando formos tão ramificados e tão dispersos, que ser parte humano vai ser comum, e ser miscigenado vai ser normal. Quando nosso nome for lembrado com orgulho e honra como aqueles que partiram para o infinito com sua frota espacial. Quando a evolução for visível e não formos apenas homo sapiens sapiens, formos algo mais, algo diferente.

Quando nossos descendentes aprenderem que muito tempo atrás, vivíamos todos em um pálido ponto azul, avulsos a todas as raças ao nosso redor sem ao menos estarmos em paz com nosso próprio planeta.

Quando cada um de nós estiver olhando uma estrela em explosão que demorou milhares de anos para morrer e que sua luz chegará até nós em muitos séculos. Quando as estrelas que observamos agora já não forem mais visíveis e nenhuma das pessoas vivas estará observando o mesmo céu que outrora foi o que vimos.

Quando nossa história for alocada junta a de outras tantas incríveis espécies e seja comum a uma criança saber quando saíram da Terra para a galáxia ao lado. Quando um humano será idoso e contará aos seus netos que ele foi parente de algum que era totalmente humano.

Quando todos nós nos formos e deixarmos um legado para todas as galáxias. Quando além de respostas, deixarmos todas as nossas perguntas.

E o que vai acontecer depois de nós?

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Thraximr

-Você está pensando neles, não está?
-Não, eu… -hesitou.- Sim, estou.
-Essa guerra não era deles. Foi suicídio…
-Foi massacre.
-Ora, vejam só. Um demônio com compaixão! Você é um infernal, Thraximr, não te esqueças disso.
-E tu não te esqueças que teu mestre e senhor já foi um anjo.
Thraximr alçou voo e se distanciou do planeta conhecido como Terra. Ou o que sobrara dele.

A gratidão de Jerrod

Do outro lado da porta, houve três batidas delicadas e ritmadas, que tiraram Jerrod de seus devaneios. O homem que estava sentado e havia acabado de acordar, virou a cabeça bem a tempo de ver a porta sendo entreaberta e uma mão jovem com unhas pintadas de vermelho se projetarem para o lado de dentro. Logo depois, a dona da mão apareceu. Uma enfermeira bonita, com cabelos castanho claros amarrados bem apertados e uma touca de enfermeira. Jerrod não pôde encontrar uma falha na face imaculada da moça.

-Senhor Jerrod? – Disse ela. – O Doutor irá vê-lo agora.

Ela se virou e abriu mais a porta, deixando um homem alto entrar. Em seguida, deu uma olhada para ele e assentiu com a cabeça, depois deixou-os a sós.

-Doutor. – A voz de Jerrod parecia distante até para ele mesmo.

O Senhor do Tempo era grisalho e usava uma roupa elegante com a gola alta no pescoço. Seus olhos de coruja não estavam acompanhados das habituais sobrancelhas irritadas, pelo contrário, elas estavas arqueadas e o Doutor olhava Jerrod com algo que o paciente só conseguiu traduzir como hesitação. Quem sabe um pouco de medo. Quem sabe culpa.

Ele andou até a parede e ficou olhando a pouca luminosidade que passava pelas venezianas. O Doutor cruzou as mãos atrás do sobretudo, mas nada disse.

Jerrod percebeu que o velho não o encarava diretamente nos olhos. Ele estava prestes a falar algo quando o Doutor decidiu quebrar a barreira sepulcral.

Olhando para a janela encoberta pela cortina esbranquiçada, sem virar o rosto para Jerrod, ele disse:

-Você deveria apreciar a vista um dia desses. – Jerrod não soube o que responder. E após um pouco de silêncio, o Doutor continuou. – A praia desse planeta tem muitas pessoas bonitas na maior parte do tempo. – Ele esticou a mão e abriu a janela. Jerrod pôde ver o céu com um azul de tom perfeito. – Civilização nível 11. Estive aqui faz muito tempo, mas ainda sei convencê-los a fazer algumas coisas. – Ele parou com a boca entreaberta olhando para longe. – São ótimos engenheiros genéticos.

-Doutor… Eu não, eu não…

-Se lembra direito? É normal. Sua mente ainda está associando as memórias. Espero que muitas estejam ai.

-Eu me lembro de um estrondo. E me lembro da T.A.R.D.I.S.

O silêncio mórbido voltou. Era como se o Doutor escolhesse as palavras. Ele se virou para o seu companheiro.

-Você gostou?

Jerrod não compreendeu o que o Doutor quis dizer. E ficou calado por alguns segundos.

-Sim, sim! Quer dizer, foi por sorte que você estava lá para me salvar, mas eu…

-Eu não estou falando de viajar comigo, Jerrod.

Ele ficou confuso.

-Eu estou falando do seu novo você. Seu novo rosto.

Inconscientemente, Jerrod levou a mão até a bochecha e olhou de um lado para o outro e então de volta para o viajante. Abriu a boca, mas a fechou logo em seguida.

-Como assim?

O Doutor deu um longo suspiro e depois respirou fundo.

-Jerrod, eu não pude lhe salvar da explosão. Você morreu.

-Não, Doutor. Como isso é possível? Eu estou aqui! – Ele se levantou e apertou o braço do velho. – Vê? Vivo!

-Sim. Vivo. – Ele se virou e encarou Jerrod nos olhos. – O estrondo que você se lembra foi uma explosão logo atrás de você. Uma bomba de detonação remota. Eu não pude fazer nada. Você foi queimado vivo.

Jerrod encarou as próprias mãos, mais bronzeadas do que ele se lembrava. Mas isso não queria dizer absolutamente nada. Mas essas não eram as mãos de que Jerrod se lembrava. Sem cicatrizes, sem marcas. Até um pouco mais fortes. Ele largou o braço do Doutor e correu para o banheiro, para procurar um espelho.

-O que eu pude fazer foi tentar copiar de forma bruta as memórias do seu antigo você, Jerrod. E eu vim direto pra cá, onde eles podiam fazer esse implante em um corpo novo.

Acima da pia, um espelho retangular se destacava das paredes perfeitamente brancas e planas. No espelho, Jerrod viu seu reflexo, mas não era ele.

-Eles são ótimos engenheiros genéticos, mas foi preciso fazer uma transferência de emergência. Não havia tempo para encomendar um corpo assim. Mesmo com a T.A.R.D.I.S. isso poderia levar o tempo suficiente para mais memórias serem perdidas ou apagadas do banco de dados.

Ele tinha olhos azul claros, cabelos pretos e lisos. O queixo quadrado e anguloso não tinha um fio de barba e a pele era de um bronzeado que parecia casar perfeitamente com os ombros largos e musculosos. Algo completamente diferente do que Jerrod se lembrava. Sem mais braços esguios, queixo fino ou sorriso torto. Para todos os efeitos, Jerrod não era mais ele. A única coisa que poderia dizer que o dono daquele corpo era mesmo o sujeito que ajudou o Doutor na evacuação das minas de Klom, eram suas lembranças, mas, no momento, nem isso.

-Não. – Disse Jerrod.

O Doutor apareceu na porta.

-Eu não gostei, Doutor. – Ele se voltou para o espelho para ver aquele homem de novo. – Você não pode fazer nada? Agora que eu já estou aqui, não podem fazer um corpo novo?

-Eu copiei a parte mais superficial das suas lembranças, as mais importantes devem ter vindo junto. Não é uma cópia inteira, algumas pessoas devem ter sido perdidas, alguns nomes, alguns parentes até. Se eu precisasse transferir essa sua mente para um corpo novo, mais lembranças seriam perdidas, Jerrod. Sua mente precisa ter o máximo das informações para não se deteriorar no processo. – O Doutor se virou e voltou para o quarto.

-Então é isso? Você vai simplesmente me deixar assim? – Se houve resposta, Jerrod não ouviu. – Com um corpo que não é meu?! Sem todas as minhas memórias?! Genial da sua parte, Doutor! Será que algum dia eu vou me lembrar do porquê você parecia ser uma boa pessoa? O velho com sua T.A.R.D.I.S.! Você é doutor quem? Deve ser o pior doutor de todos! – Para a surpresa de Jerrod, o Doutor apareceu novamente na porta. Ele se segurou para não bater em cheio no rosto do velho. – Diz pra mim, Doutor. Você acha que sabe como é se olhar no espelho e não se reconhecer?! Saber que existem pessoas que se importaram com você, que lhe ajudaram e que você nem mesmo se lembra do rosto delas?!

O mesmo semblante de mais cedo apareceu no rosto do Doutor. O olhar vazio. Jerrod acompanhou o que o homem fitava e encontrou o espelho.

-Sei. – E completou. – Eu sei sim. – O Doutor se aproximou de Jerrod e encarou o espelho de frente. – Você olha, e um homem diferente olha para você a cada hora do dia. Algumas vezes tão jovem, algumas vezes tão bravos. E em horas sombrias, você duvida que seja você mesmo no reflexo.

O Doutor tocou o ombro de Jerrod.

-Jerrod, se você quiser, pode ser uma pessoa completamente nova agora. Mas, por favor…

Quatro batidas ritmadas ecoaram e a porta do quarto se abriu.

-Doutor? O tempo de visitas acabou. – Disse a mesma enfermeira com meio corpo para dentro do quarto do paciente.

O Doutor saiu do banheiro e Jerrod permaneceu lá dentro.

O Doutor olhou para trás uma última vez, mas Jerrod parecia concentrado demais em sua raiva e tristeza.


Nessa ficção de fã, eu me inspirei no livro SHADA, em que o Doutor vai para este mesmo planeta ao final do livro (não vou dar spoilers). Mas optei por usar o Doutor do Peter Capaldi por ele ter um lado emocional que podia ser facilmente aproveitado nessa situação (especialmente depois do fim da temporada de 2015).

Além do mais, Doctor Who é minha série favorita, então tentei fazer uma homenagem, mesmo que bem simples, para esse universo de Daleks, Senhores do Tempo e Cybermen.

PS: Klom é o nome de um planeta gêmeo de outro, parabéns para quem souber qual.

As fotos do Circo Voador [8/8]

O primeiro impulso de Alexandre foi correr para a escada, onde ele esperava não haver ninguém. E em disparada os dois homens correram atrás dele gritando obscenidades e ameaças como “É melhorar parar antes que a gente quebre suas pernas!” ou “Volta aqui seu magrelo!”.

Alex subiu as escadas e correu pelo corredor sem perceber as portas fechadas ou abertas que o ladeavam. O som dos passos pesados do homem grande o seguiam e os gritos do asiático chegavam aos seus ouvidos.

Merda! Puta que pariu!

No fim desse corredor havia uma escada grande em um ângulo quase reto. Alexandre subiu nela com um fôlego que ele não sabia de onde havia tirado. Talvez da vontade de fugir e as substâncias liberadas pelos hormônios.

Quando ele ia chegando no final, percebeu que podia observar o céu noturno e a lua. Tomou um novo impulso e chegou até a parte de fora do Circo Voador, foi até a amurada com a intenção de pular e ficar livre das garras dos seus perseguidores que, em breve, iriam chamar o resto de seus companheiros. (mais…)